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BTS não vai concorrer ao Grammy: 'Que a música seja ouvida pelo que é, sem divisão por região ou idioma'

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O BTS não vai concorrer na 69ª edição do Grammy.

O grupo avisou nas redes sociais na tarde de 29 de julho, num texto de três frases: decidiram não inscrever seus trabalhos na premiação deste ano e esperam que a música seja ouvida e amada pelo que ela é, sem ser separada por região ou idioma. O agradecimento final, como sempre, foi para o ARMY.

Não houve coletiva. A BIGHIT MUSIC não acrescentou uma linha. Para um grupo que passou quase uma década apontando o Grammy como a conquista que faltava, a brevidade era o recado.

BTS

BTS | BIGHIT MUSIC

A categoria que chegou primeiro

Em 16 de junho a Recording Academy anunciou cinco categorias novas para a cerimônia que acontece nos Estados Unidos em fevereiro. Uma delas é Melhor Performance de Pop Asiático, dentro do campo de Pop & Dance/Electronic. Harvey Mason Jr., CEO da Academia, apresentou a mudança como leitura de tamanho: o pop asiático, segundo ele, é uma das forças mais consistentes e relevantes da indústria global.

O atrito está nas letras miúdas. Para se inscrever, a gravação precisa ser pop melódico e mainstream, nascido ou amplamente reconhecido nos mercados asiáticos, e usar de forma significativa pelo menos uma língua asiática. Ad-lib e frase solta não contam. A Academia deixa claro que o critério é o estilo musical, não a nacionalidade nem a origem de quem canta: razoável no papel, complicado numa indústria com produção global e vocais em coreano.

É exatamente aí que a frase do BTS aterrissa. Uma regra que organiza discos pelo idioma em que são cantados é a divisão que o comunicado recusa.

O anúncio publicado nas contas dos integrantes

O anúncio como apareceu nas contas dos integrantes | Instagram

Do que abriram mão

ARIRANG, o quinto álbum de estúdio, saiu em março e estreou em primeiro lugar na Billboard 200. 'SWIM' entrou direto no topo da Hot 100, o sétimo número um de cada um. 'NORMAL' estreou na 41ª posição da Hot 100 na parada de 4 de abril, e o clipe cravou o recorde de reproduções em um único dia para um lançamento de K-pop no Spotify em 18 de julho.

Em 23 de julho, seis dias antes do anúncio, a Forbes publicou que este seria o maior ano do BTS no Grammy e apontou a nova categoria asiática como o caminho mais claro do grupo para o primeiro troféu. São cinco indicações e nenhuma vitória até aqui. O caminho mais claro é justamente o que eles decidiram não percorrer.

BTS

BTS | BIGHIT MUSIC via Yonhap

A Coreia discutia isso havia seis semanas

A reação interna se dividiu no mesmo dia do anúncio. Um representante de agência disse ao Korea Times que, no K-pop, prêmio é visibilidade, e que quanto mais artistas elegíveis, mais presença na sala e no palco. O crítico Jung Min-jae foi para o lado oposto: juntar K-pop, J-pop e C-pop numa casa só achata mercados que não soam igual nem funcionam igual.

A comparação que todo mundo puxou foi a do latino e do R&B, gêneros que ganharam campo próprio no Grammy e passaram décadas discutindo se aquilo foi chegada ou porta lateral. Na edição passada, 'Golden', de KPop Demon Hunters, levou Melhor Canção Escrita para Mídia Visual, o primeiro Grammy ligado ao K-pop, e venceu numa categoria geral, não regional.

A leitura: a Academia resolveu o problema dela, não o do K-pop

Os fatos primeiro. A Academia criou uma categoria. O grupo com mais chance de vencê-la se retirou da cédula inteira em vez de ocupar a vaga. O comunicado não cita nem critica a Academia pelo nome, e as datas não deixam espaço para ler aquilo como coincidência.

Por que isso importa: diante de uma categoria nova, o comportamento padrão é preenchê-la. A organização abre a vaga, as agências inscrevem, os artistas recolhem, e no segundo ano a vaga já virou mobília. O BTS quebrou esse circuito no ponto em que quebrar sai mais caro: com álbum em primeiro, single em primeiro e um texto de elegibilidade que parece ter sido redigido com o catálogo deles aberto ao lado.

Onde isso rompe com a prática do setor: na Coreia, prêmio é tratado como distribuição. Inscrever custa quase nada, uma indicação se paga sozinha em shows, patrocínios e cobertura, e ninguém deixa isso na mesa por princípio. Recusar justamente no ano em que a chance melhorou contraria o modo como o negócio funciona, e é por isso que a decisão se lê como posição, não como ajuste de agenda.

O risco corre nos dois sentidos. Ausência só é lida como princípio quando é grande o bastante para ser notada, e o BTS é um dos poucos nomes que alcançam essa altura. Mas o efeito se desgasta. Se o grupo se inscrever num ciclo seguinte, o gesto será reinterpretado como jogada de negociação. E a categoria será entregue de qualquer forma, o que significa que o primeiro vencedor de Melhor Performance de Pop Asiático vai levar um troféu que o maior nome do gênero se recusou a disputar. É uma herança desconfortável para quem ganhar, e nada disso é culpa dele.

A pergunta que resolve o caso não é retórica: as outras agências coreanas vão inscrever normalmente neste segundo semestre? Se as concorrentes da HYBE entregarem suas candidaturas e a categoria se encher sem sobressalto, a posição do BTS continua sendo a declaração de um grupo, não de uma indústria. A lista de indicados responde isso em público, e responde logo.

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